TJPE - 21 de Julho
Hepatites virais: conhecer para reduzir estigmas e preconceitos
É sempre o silêncio que nos mata: eis a grande lição que nos foi ensinada por Sigmund Freud, a saber, o valor libertador das palavras. O silêncio, nos ensina a Psicanálise, não é "o nada", mas a presença de algo que nos sufoca. São sempre as palavras que nos salvam. Uma parcela significativa da história da Saúde reside na identificação dos agentes nocivos à vida. A ciência já detectou vários: vírus, bactérias, fungos, protozoários; mas os males provocados pelo silêncio são sempre subestimados. A palavra não dita, a defesa não feita, o momento perdido, o perdão não dado são algumas formas de silêncios de morte.
Penso que esta menção ao silêncio seja uma boa forma de começar uma conversa sobre as hepatites virais (infecções que atentam contra o órgão hepático e que são classificadas, em suas cinco formas de incidência, de A a E) naquela que é sua característica mais perigosa: o silêncio dos sintomas. As hepatites virais são infecções que atingem o fígado e, muitas vezes, podem permanecer silenciosas por anos. Permanecem alojadas causando danos que podem levar até mesmo a cânceres em última instância e que emitem sinais e sintomas muito modestos, por vezes imperceptíveis e silenciosos. Tal como o ressentimento que, na esfera psicológica, pode envenenar a nossa vida, sintomas como cansaço, enjôo e alterações no sono e padrões de excreção atípicos podem ser sinais valiosos de que algo não vai bem, mas costumeiramente ignorados em seu quase silêncio.
Na louca caravana que tornou-se a nossa vida (como um poeta já definiu a pressa de nossa contemporaneidade) torna-se ainda mais imprescindível nos mantermos atentos aos balbucios do nosso corpo. Entretanto, numa sociedade organizada em torno da performance e que premia a exaustão e as sobretarefas, como encontrar tempo para escutar-se, olhar-se, ouvir-se, resignificar-se, ou, em uma única palavra, cuidar-se?
Na clínica psicológica, aprendemos que o sofrimento nem sempre nasce apenas da doença, mas também dos sentidos que a sociedade deposita sobre ela. O preconceito como forma real de produção de estereótipos produz silêncios, afasta pessoas dos serviços de saúde e faz com que muitos carreguem, além do peso do tratamento, a angústia de serem vistos através do estigma de se estar doente. Como nos ensinou Jacques Lacan, somos constituídos pelo olhar e pela palavra do outro. Quando esse olhar se torna acusação e essa palavra se transforma em julgamento, o cuidado encontra obstáculos e uma semente de morte é plantada. São as angústias sonhadas que, como disse Fernando Pessoa, pesam mais que a vida vivida.
Nosso fígado exerce mais de 500 funções que asseguram a existência e a vida com qualidade incluindo funções associadas à nutrição, digestão, defesas, metabolismo e filtragem geral das impurezas. Ele é o grande alquimista do corpo, um tear silencioso que opera na penumbra. Ele é o alquimista que opera transmutações o caos em ordem: separa o ouro puro dos nutrientes e tece um véu de proteção contra as sombras das toxinas, purificando incessantemente o rio da vida para que o corpo continue a florescer. É um órgão poeta.
Toda dor (física ou psíquica) é um sinal de alerta, um pedido de socorro. Quando foi a última vez que você consultou suas taxas associadas às funções hepáticas? Falando nisso, quando foi a última vez que você examinou os silêncios que gritam em você?
Cuide do seu fígado, cuide ainda mais dos seus silêncios.
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Texto: Diretoria de Saúde | TJPE
Por: Tribunal de Justiça de Pernambuco