Eleições 2026: DPU inova com núcleo especializado e garante voto de mais vulneráveis
Às vésperas do primeiro turno das eleições deste ano, 32 indígenas Tapayuna da aldeia Kawêretxikô buscavam um meio para se deslocar até a seção eleitoral onde votariam, localizada na aldeia Metuktire, ambas na Terra Indígena Capoto-Jarina, no Mato Grosso (MT). Eles tinham o barco como transporte, mas não dispunham do combustível. A Defensoria Pública da União (DPU) solicitou ao Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT) a adoção de providências e, assim, as condições necessárias foram viabilizadas para o deslocamento dos eleitores.
Este é um exemplo de como a atuação da DPU nas Eleições 2026 ganhou destaque com a criação do Núcleo Estratégico de Interiorização Eleitoral (NEIE), instituído pela Resolução nº 250/2026. Ao longo dos últimos quatro meses, a instituição trabalhou de forma intensa para ampliar o acesso da população à Justiça Eleitoral. Participação de indígenas, direito ao transporte gratuito para votar e violência política de gênero foram alguns dos temas de maior relevância nesse período.
Assim que o NEIE foi criado, em junho deste ano, representantes do núcleo percorreram diversos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) pelo país para apresentar a iniciativa e abrir caminhos para soluções extrajudiciais, como a que resolveu o problema dos indígenas Tapayuna.
Ainda como parte desse trabalho de articulação institucional, a DPU participou, na véspera e no dia da eleição, no primeiro e no segundo turno, dos testes de integridade de urnas eletrônicas, sem e com biometria, sob a coordenação dos TREs.
Eleições 2026: Saiba como funcionam os testes de integridade das urnas eletrônicas
Direito ao transporte gratuito
Já no primeiro turno das eleições, a DPU pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) medidas para garantir a oferta de transporte público gratuito nas eleições de 2026. A medida tinha como foco as condições de deslocamento de eleitores de baixa renda, comunidades rurais e indígenas. A instituição solicitou que os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) fiscalizassem o cumprimento da regra e divulgassem informações sobre itinerários e horários em cada localidade.
No segundo turno, sob coordenação nacional do NEIE e em articulação com os ofícios regionais de Direitos Humanos, a DPU oficiou mais de 3,5 mil municípios com objetivo de apurar a oferta do serviço de transporte no dia 4 de outubro. Até o dia 21 de outubro foram recebidas 787 respostas de municípios de 15 estados, das quais 761 continham informações sobre o transporte, e 26 delas acusaram apenas recebimento.
Entre os que responderam, 105 municípios declararam impossibilidade de ofertar transporte ou disseram não ter oferecido o serviço no primeiro turno. Além desses, 12 municípios disseram ter ofertado o serviço de forma limitada; 219 informaram não ter transporte coletivo, mas ofereceram alternativa; e 425 ofertaram transporte ou gratuidade.
A partir dos dados levantados, a DPU acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) com um pedido de liminar para garantir transporte gratuito no segundo turno, citando, especificamente, os municípios que não ofertaram o serviço em 4 de outubro. Também foram incluídos municípios que operaram com frequência inferior à dos dias úteis.
DPU pede liminar ao STF para garantir transporte gratuito no segundo turno
Atuações regionais
Em paralelo às atuações nos tribunais superiores, defensores em diversos estados, sob a coordenação do NEIE e da Coordenação de Tutela Coletiva (CTCO) da DPU, se mobilizaram para cobrar a oferta do transporte, especialmente em locais de votação com maior abstenção. A iniciativa priorizou as populações em situação de vulnerabilidade, incluindo povos indígenas, comunidades quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais, sobretudo as que vivem em áreas rurais, localidades distantes ou de difícil acesso.
Na Bahia, foram emitidas recomendações às prefeituras de Vitória da Conquista e Feira de Santana após terem sido verificados problemas no primeiro turno. A Defensoria reuniu relatos de falhas no atendimento à zona rural conquistense, com moradores de comunidades quilombolas tendo que caminhar cerca de 10 km para votar, por exemplo. A DPU pediu veículos suficientes para cobrir 91 roteiros rurais, a oferta de ônibus urbanos com frequência compatível com a dos dias úteis e a divulgação antecipada de itinerários e horários.
No Rio de Janeiro, a DPU também atuou para garantir o transporte de eleitores indígenas da aldeia Mata Verde Bonita, em Maricá, durante o segundo turno das eleições, realizado em 25 de outubro. Após relatos de dificuldades de deslocamento e falta de acesso a transporte adequado, a defensora regional de Direitos Humanos no Rio de Janeiro, Taísa Bittencourt Leal Queiroz, encaminhou ofício à prefeitura solicitando a disponibilização de veículos gratuitos para levar os moradores aos locais de votação. O prefeito respondeu positivamente à solicitação, atendendo à demanda apresentada pela DPU para assegurar o exercício do direito ao voto pela comunidade indígena.
No Rio Grande do Sul, a DPU também atuou para garantir o direito ao voto de pessoas privadas de liberdade, com foco nos presos provisórios. No âmbito do Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com o Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS), a instituição realizou atendimentos em diversos estabelecimentos prisionais que abrigam presos provisórios e em unidades socioeducativas. A iniciativa teve como objetivo divulgar e orientar sobre o direito à transferência provisória do título eleitoral, contribuindo para ampliar o acesso à Justiça Eleitoral e garantir o exercício do direito ao voto por essas pessoas.
Alteração de locais de votação
Além de buscar a oferta regular e gratuita do transporte público, a instituição também atuou para ampliar a divulgação de informações sobre eventuais alterações dos locais de votação. No Rio de Janeiro, a instituição encaminhou ofício ao TRE-RJ para solicitar informações e providências sobre o rezoneamento eleitoral e seus possíveis impactos no acesso às urnas.
A DPU aponta que 277 locais de votação foram alterados no Rio de Janeiro em relação a 2024, com impacto estimado sobre cerca de 670 mil eleitores. Entre os casos destacados está o Complexo da Maré, onde moradores relataram dificuldades para votar fora do território em que residem. Segundo o levantamento, em algumas situações, o novo local de votação fica a aproximadamente quatro quilômetros da residência do eleitor.
Violência política de gênero
Por meio do Programa Nacional de Enfrentamento da Violência Política de Gênero, a DPU desenvolveu diversas ações nas eleições de 2026. Em relação ao recebimento de denúncias, o Observatório da Violência Contra as Mulheres (OVM) da DPU registrou, até o momento, oito casos no período eleitoral, dos quais quatro foram delimitados como violência política de gênero. Três deles ocorreram no Rio de Janeiro e um em Santa Catarina.
Foram constatados ataques de natureza psicológica, moral e simbólica contra candidatas em rede social (Instagram), e um caso envolveu agressão física a candidata suplente, em via pública, atribuída a agente público. O quarto caso, de agressão física contra uma apoiadora, não configurou violência política de gênero, e a pessoa foi orientada à rede competente.
A DPU também faz parte, desde outubro de 2025, do Acordo de Cooperação Técnica (ACT) de enfrentamento à violência política contra as mulheres. Como parte do plano de ação do ACT, a instituição editou, em março deste ano, um protocolo de enfrentamento que prevê a assistência e a orientação jurídica da DPU às vítimas.
O acordo é uma parceria com o Ministério das Mulheres, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e a Procuradoria-Geral Eleitoral.
Ainda neste tema, a DPU participa das Salas de Situação sobre violência política de gênero e raça, realizadas na Casa da ONU, em Brasília, que reúnem Tribunal Superior Eleitoral (TSE), CNMP, Procuradoria-Geral Eleitoral, Ministério Público Federal (MPF), Polícia Federal e ministérios.
Nesses espaços conjuntos, a DPU apresentou sua definição ampla de violência política, utilizada para acolher e encaminhar mulheres mesmo quando o caso não se enquadra de imediato no tipo penal, e relatou os esforços para mapear os atendimentos nas unidades, com recorte de raça e etnia.
Direito à informação
A DPU também foi parceira da Justiça Eleitoral na divulgação de informações aos eleitores, com publicação de matérias de serviço, produção de spots para rádios e carros de som, cards explicativos em redes sociais e envio de materiais para divulgação pelos Centros de Referência de Assistência Social (Cras).
Alguns dos temas abordados por meio de publicações e materiais de divulgação: como funcionam os testes de integridade das urnas; o que pode e o que não pode fazer no dia da eleição; e como pedir transporte gratuito ao TRE para eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida que não têm como chegar sozinhos ao local de votação.
Eleições 2026: Saiba como funcionam os testes de integridade das urnas eletrônicas
Eleições 2026: o que pode e não pode fazer no dia da votação
Seu Voto Importa: Último dia para pedir transporte gratuito para votar
Assessoria de Comunicação Social
Defensoria Pública da União
Por: Defensoria Pública da União
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